O fisioterapeuta desinteressado

Gaiola

O cliente chega e na avaliação o fisioterapeuta desinteressado observa seus lábios se mexendo, ouve algo como “dor” e “coluna”, ou “dor” e “ombro” ou “dor’ e “joelho”. Rapidamente essas palavras se combinam em sua complexa mente numa equação simples: “dor” + “parte do corpo” = “choquinho” ou “luzinha”. Na sua avaliação, de posse dos seus poderes dedutivos comparáveis aos do Dr House, nem precisou por a mão no cliente para saber qual o problema relatado. Durante o tratamento, boa parte das vezes só encosta para retirar a plaquinha de borracha do aparelho mesmo. Peraí, vamos ser honestos, ele também encosta para dar uma limpadinha ali no gel.

Enquanto o aparelhinho trabalha, ele fica no celular vendo a última piada do “whats” que a galera do grupo mandou. Se mulher, a fisioterapeuta desinteressada fica vendo as últimas fofocas que as meninas contaram. Afinal, o que importa conversar com o paciente para saber detalhes decisivos dos problemas, ele vai ficar reclamando de dor mesmo.

No começo o fisioterapeuta desinteressado tinha até um pouco de preocupação com as pessoas que atendia. Mas depois de se frustrar com alguns tratamentos em pacientes que tinha expectativa mas não evoluíram bem, já pensa que boa parte são velhos e  os problemas que têm não vão melhorar muito. E então o fisioterapeuta desinteressado põe choquinho em todo mundo, porque alivia um pouco a dor e assim ele não se cansa.

O fisioterapeuta desinteressado não se liga que o paciente está ali observando atentamente a tudo e sabe que não há muita fisioterapia que se possa fazer no celular. O cliente repara em tudo! Por mais aparentemente simples ou  desligado, sabe quando não está recebendo atenção do fisioterapeuta que o atende, mas o fisioterapeuta desinteressado não percebe isso.

E se faltar luz na clínica é preciso dispensar e reagendar os clientes, pois para o fisioterapeuta desinteressado não é possível se realizar um tratamento sem energia elétrica nas tomadas. Eletroterapia quando bem realizada é ótima, mas como protagonista de qualquer tratamento é fria.

Essa é uma critica construtiva e esse esteriótipo serve para homens e mulheres, quaisquer semelhanças com a realidade é mera coincidência. Não me inspirei em ninguém em especial, mas sei que infelizmente acontece.

É preciso interesse, e não apenas o financeiro.

É preciso interesse em sentir e compartilhar a dor da pessoa aos seus cuidados.

É preciso interesse em buscar o alívio para essa dor que você se interessou em sentir.

 

3 pensamentos sobre “O fisioterapeuta desinteressado

  1. Concordo com tudo aqui registrado, mas trabalhando no SUS posso acrescentar sobre o outro lado: pacientes desinteressados e que por mais que o fisioterapeuta se esforce para trabalhar com a cinesioterapia ele não quer, não realiza em casa, não segue as orientações…muitos passam na fisio para seguir o protocolo do INSS e pegar a cartinha no final das sessões!
    Isso desestimula qualquer profissional!!!
    Com os poucos que realizam cinesio, mal se consegue evoluir os exercícios!
    Dura realidade…dois lados!
    Pareço pessimista com este relato não?! Rs…

    • Fabiana, te entendo perfeitamente, já passei por uma fase de desânimo como essa. mas vamos pensar um pouco. Como fisioterapeutas queremos sempre ver essa evolução, mas ela nem sempre é possível. Temos que oferecer os meios para que o paciente tenha interesse em aderir ao tratamento. Tenho pós em osteopatia e sempre usei muito de terapia manual, mas no final das contas, é um tratamento onde o paciente não participa.

      Como servidor público, meu objetivo é atender da melhor forma que me for possível quem me procura. Procuro entender os motivos da não-adesão ao tratamento, e eles são muito variados. Pra isso, às vezes é preciso mudar o foco, para só assim tirar da mente da pessoa que você está tratando o modelo assistencialista de saúde, onde “o que vem de fora vai me curar”.

      Você me deu uma ideia interessante para um novo texto sobre esse assunto.

      Abraço Fabi!

      • Ótimo! Desenvolva o assunto…rs…quero ler!
        Sempre tento aplicar a educaçao em saúde para o auto cuidado com os pacientes, é um trabalho de formiguinha e às vezes aparece algum que me dá ânimo para continuar tentando! Esta semana msm veio uma pct q atendi, 37 anos com hernia lombar baixa, marcha com claudicaçao, sem consciência corporal…enfim…de tanto falar e tentar ela resolveu seguir as orientações e apareceu esta semana para visita, está bem, sem dor, marcha sem alterações…isso vale a pena, isso dá ânimo! Entendo que em alguns casos a coisa tá tão feia que a fisio não vai fazer milagre!!
        Abç

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