A bolinha e a fisioterapia

bolinha na mão

Essa todo fisioterapeuta conhece, e você estudante terá alguma pessoa te perguntando isso também algum dia. “Posso fazer exercício com bolinha para melhorar minha mão?”. Depende do objetivo, mas para maioria dos problemas que as pessoas utilizam, pode ser um tiro no próprio pé.

A BOLINHA NA FISIOTERAPIA ORTOPÉDICA

Dúvida muito comum em pessoas com tendinopatias de punho, como a Síndrome do Túnel do Carpo, ou até com tenossinovite de Quervain. Muita gente tem certeza que se fortalecer a mão com a bolinha as dores vão acabar. E dessa forma garantem que cirurgiões de mão tenham sempre um caso urgente pra resolver.

O caso é que a tendinopatia é causada por alguns fatores anatômicos e funcionais combinados com “overuse”, ou seja, abuso de movimentos repetitivos, normalmente realizados de forma anti-ergonômica. Temos um processo inflamatório e lesões teciduais. A pessoa deve fortalecer sua mão? Não! Deve protegê-la!!! Deve reeducar todo o uso dos seus membros superiores, passando por posição da cervical e  do ombro, e principalmente punho e mão. Se após avaliação, houver constatação de desequilíbrio de força entre agonistas e antagonistas o fortalecimento pode ser iniciado, mas em condições específicas e raramente de flexores de punho e dedos.

E deve tratar antes de ter a necessidade de operar, sendo uma cirurgia com elevado grau de recidivas. Em parte porque voltam a fazer a mesma coisa que faziam antes de operar, da mesma forma, com a mesma tensão excessiva, na mesma posição anti-ergonômica. Nesse ponto está o papel do fisioterapeuta no “follow-up”, na sua rotina após o tratamento com fisioterapia. Orientar esse paciente pode ser tão importante para prevenir lesões como o tratamento foi para reabilitar a função comprometida.

Pra quem tem problemas que precisam dessas orientações e dessa reeducação ser atendido por um fisioterapeuta consciente é mais importante que ser atendido por um fisioterapeuta com diploma na melhor escola de terapia manual do mundo e pós-Doc, mas que por descuido não dê atenção a isso. Nada contra qualificações, mas títulos não ajudam se o fisioterapeuta não tiver esse genuíno interesse em resolver o problema da pessoa sob seus cuidados.

A BOLINHA NA FISIOTERAPIA NEUROLÓGICA

O texto abaixo retirei do blog do Humberto.

Como tudo começou…
Há muito, muito tempo atrás, Lima Duarte interpretou um personagem chamado “Dom Lázaro Venturini” na novela “Meu Bem, Meu Mal” da Rede Globo. Em determinado momento da trama este personagem sofre um AVE, e ao longo dos capítulos seguintes, o seu processo de reabilitação se resumia aos cuidados prestados pela “Dona Catifunda” e aos exercícios de apertar uma bolinha macia.
O mais fantástico nisso tudo é que de tanto apertar a bendita bolinha, Dom Lázaro voltou a ouvir, se movimentar e falar. Só não terminou a novela fazendo malabarismos na corda bamba porque o Lima Duarte tem medo de altura.
Infelizmente esta novela contribuiu na divulgação da falsa ideia de que uma pessoa com AVE deve ficar apertando bolinhas para recuperar os movimentos.

Agora falando sério
O grande problema de se entregar uma bolinha para uma pessoa que sofreu AVE ficar apertando é que este não é um exercício inofensivo. O AVE manifesta-se frequentemente por alterações do tônus e do controle motor voluntário. Nos membros superiores predomina o chamado padrão ou sinergia flexora, caracterizado por hipertonia dos principais grupamentos flexores gerando uma postura em adução e rotação interna do ombro, flexão do cotovelo, pronação do antebraço e flexão dos dedos.
De modo geral, este padrão permite ao paciente um certo controle sobre os músculos flexores (tanto que eles conseguem apertar a bolinha) porém existe grande dificuldade para conseguir abrir a mão, seja devido a espasticidade agindo como antagonista ao movimento extensor, seja por incapacidade de ativação dos músculos extensores.
Em ambos os casos, o fortalecimento dos músculos flexores de punho e dedos não contribui em nada para a recuperação do controle dos movimentos da mão. Na verdade, estes exercícios podem aumentar ainda mais a espasticidade e resultar em encurtamento muscular e deformidade da mão, dificultando a higiene, o posicionamento e a recuperação dos movimentos. http://fisioterapiahumberto.blogspot.com.br/2011/07/mitos-e-lendas-da-fisioterapia.html

MAS QUANDO USAR A BOLINHA?

Apesar de não servir para tendinopatias e AVE, a bolinha é um meio elástico que oferece resistência ao movimento de flexão dos dedos e da musculatura intrínseca da mão. Muita gente recomenda usar para ativar a circulação durante atividades de digitação por tempo prolongado, mas nesse caso é melhor uma bolinha com pontas, e realizar um exercício de rolamento da bolinha com pressão para baixo, e não ficar apertando a bolinha.

Ela é útil em recuperações pós-trauma e em alguns casos de lesão de nervos periféricos da mão, mas de qualquer forma, utilizada como única forma de tratar qualquer problema faz dela um mico e em alguns casos, um inimigo. Simplificar seu tratamento e ficar apertando bolinha não é muito prudente. Na melhor das hipóteses pode ser perda de tempo. Na pior, transforma em indicação cirúrgica uma disfunção que era tratável sem essa necessidade.

Na verdade, a grande vilã não é a bolinha,  mas a desinformação e a subsequente  imprudência na sua utilização.

2 pensamentos sobre “A bolinha e a fisioterapia

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