Aceitar para aprender no estudo para concurso? por Rogerio Neiva

Você compreende a importância de aceitar para aprender? Você resiste aos conhecimentos com os quais tem e/ou deve ter contato para se preparar para o concurso público? Você aceita ou resiste ao que deve aprender?

Existem vários aspectos relacionados ao processo de preparação para concursos que não temos consciência. Muitas vezes agimos de forma automatizada, ou mesmo reproduzindo condutas, algumas inclusive sem qualquer fundamento, e sem consciência do seu sentido. Aliás, diante da grande quantidade de “fórmulas mágicas” para aprender e passar em concurso, propostas pelos especialistas sem especialização, estamos sempre vulneráveis à adoção de atitudes sem a adequada compreensão.

Não há dúvida de que neste universo de atitudes inconscientes, a resistência ao aprendizado deve ser considerada. Muitos candidatos contam com uma resistência a determinadas matérias e conteúdos que devem ser estudados, sem ter a devida noção do quanto resistem.

Daí vem o principal argumento a ser sustentado no presente texto: é preciso aceitar para aprender!

E fundamentos para esta compreensão não faltam.

Uma primeira ideia relevante, atualmente uma quase-unanimidade nas ciências voltadas ao estudo da cognição, é que os processos de aprendizagem contam com uma forte influência de variáveis de ordem emocional. Em termos positivos ou negativos, para o bem ou para o mau.

Exatamente por isto, tenho atribuído significativa importância ao tema do “prazer em aprender” no processo de preparação para concursos públicos. Porém, se por um lado, é fundamental trabalhar o prazer em aprender, por outro, também é indispensável superar a resistência e desenvolver a aceitação.

E não adianta, como popularmente se diz, “tapar o sol com a peneira”. Ou seja, já ouvi candidatos afirmarem que evitam dizer que não gostam de determinada matéria como forma de não fomentar a resistência.

Quem adota esta compreensão já está um passo à frente, pois tem consciência de que resiste a alguma ou algumas matérias, bem como não ignora a importância de superar tal situação.

No entanto, é preciso enfrentar a resistência. É preciso trabalhar, conscientemente, a aceitação.

Não é necessário muito esforço, ou mesmo a mobilização de muitas teorias ou construções da psicologia ou da psicanálise, para concluir que se resistimos e não aceitamos algo, qualquer que seja a sua natureza, teremos dificuldades no processo de contato com este mesmo objeto de resistência. Com as matérias e conteúdos daquilo que temos que estudar na preparação para o concurso público não é diferente.

Recentemente, um candidato a concurso da carreira diplomática, que não conta com formação acadêmica na área jurídica, me relatou a sua resistência com o Direito Administrativo. Não era preciso nem que detalhasse a falta de aceitação, pois até a sua expressão facial mostrava o quanto detestava os conceitos e construções administrativistas. Na ocasião, ele havia se dirigido a mim para tirar uma dúvida, sendo que a conversa avançou para o referido relato.

Diante daquele cenário, me convenci de que era preciso quebrar a resistência. Ou seja, se o referido candidato não aceitasse o Direito Administrativo, não avançaria adequadamente.

Inclusive, um traço da resistência é o clássico questionamento acerca da utilidade daquela matéria e conteúdo do edital, do tipo “para que preciso saber isto?”. Não nego, até por uma questão de respeito ao princípio da proporcionalidade e de não ocorrência de desvio de finalidade, que deve haver compatibilidade entre as atribuições do cargo e o programa do edital.

Mas isto é outra discussão, pois se a matéria está no edital, o referido questionamento em nada ajuda na aceitação.

Pois bem, voltando ao candidato que odiava Direito Administrativo, ao desenvolver a minha estratégia para quebrar a resistência e promover aceitação, sabendo do seu interesse e satisfação por matérias como história e ciência política – o que é natural entre os aspirantes às carreiras diplomáticas, comecei explicando que o Direito Administrativo consiste num fenômeno jurídico fruto do Estado Moderno, envolvendo um conjunto de mecanismos construídos para quebrar a lógica patrimonialista que havia na Idade Média, na qual o interesse privado da Coroa se confundia com o interesse público-estatal. Propus que pensasse no princípio da impessoalidade do art. 37 da Constituição Federal e no Estado Absolutista-Medieval. Disse a ele: “imagine o Rei da Idade Média, representante de Deus na Terra, ter que licitar, publicando edital e observando as regras da Lei 8.666/1996, para realizar compras para a Coroa?”.

Avançando na estratégia que construí para quebrar as resistências, e partindo para um plano mais perto da realidade, passei a sustentar que o Direito Administrativo nos cerca de vários lados da nossa vida. Assim, passei a explicar os atributos do ato administrativo, relatando uma cena de aplicação de uma multa de trânsito, propondo que imaginasse a autoridade administrativa afirmando ao infrator: “este ato conta com presunção de legitimidade, pois eu tenho fé pública, sou investido no cargo com atribuições administrativas para praticar este ato e constatei a infração; tem imperatividade, de modo que decorre do poder de polícia da Administração e não há necessidade de outro ato para que esse seja respeitado, e goza de auto-executoriedade, no sentido de que a multa deve ser paga imediatamente ou no prazo”.

Em seguida provoquei: olhe à sua volta! Veja o quanto o Direito Administrativo o cerca? Olhe para o alvará de funcionamento da padaria na qual você compra pão e pense na sua natureza jurídica. Imagine o que ocorrerá se você ver um rato no local e resolver chamar a vigilância sanitária? Qual a natureza dos atos que serão praticados pelas autoridades mobilizadas? Quais poderes da Administração serão exercidos?

Não tenho dúvida de que a resistência começou a diminuir. E o referido candidato passou a experimentar um processo de aceitação.

Portanto, desarme-se!

Aceite aquelas matérias e conteúdos quanto aos quais conta com resistência. Construa estratégias de aceitação.

Tenha consciência de que é preciso aceitar para aprender!

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