IADES – EBSERH – UFTM/MG 2013 – Questão 33

33. A eletroterapia caracteriza-se pelo uso da eletricidade para fins terapêuticos. Existem inúmeras correntes terapêuticas utilizadas na prática clínica diária do fisioterapeuta. A cerca da eletroterapia, assinale a alternativa correta.

(A) A corrente interferencial vetorial, por ser de média frequência, tem uma maior impedância à passagem da corrente pelos tecidos do que a TENS.

(B) As correntes diadinâmicas, por serem correntes de média frequência, apresentam maior profundidade de penetração em relação às correntes galvânica tradicional e farádica.

(C) A corrente pulsada de alta voltagem seria um exemplo de corrente de média frequência.

(D) Ao estipularmos uma frequência de tratamento baixa, estaremos buscando o controle da dor por meio da teoria das comportas. Por outro lado, se elegermos uma frequência de tratamento alta, estaremos objetivando a liberação dos opioides endógenos.

(E) Ao estipularmos uma frequência de tratamento baixa, estaremos buscando o controle da dor pela liberação dos opioides endógenos. Por outro lado, se elegermos uma frequência de tratamento alta estaremos objetivando o controle da dor pela teoria das comportas.

Eletroanalgesia

Essa banca está me surpreendendo positivamente. Questões de refinamento e detalhes mínimos, muito legal.

Antes de mais nada, sobre eletroterapia, acho uma pena que a fisioterapia seja tratada por alguns profissionais como eletroterapia apenas. A ilusão do alívio do sintoma temporário não pode ser levado em consideração para se considerar a efetividade do tratamento. É preciso sempre avaliarmos a causa, tratar a patologia e a disfunção articular, descobrir e tratar o que é necessário para o sucesso a longo prazo do tratamento. Se por um lado há uma pressão por produtividade, seja por convênios ou demandas do setor público, pelo outro temos a conduta profissional do terapeuta, que deve visar sempre a reabilitação completa, quando possível, e o melhor benefício que pudermos proporcionar nos demais casos. Isso é muito difícil, não se alcança apenas na graduação, é preciso estudar cada paciente que nos ofereça desafios na prática clínica e buscar as ferramentas necessárias para o tratamento.

Talvez por isso muitos cursos se propaguem por aí sem que haja qualquer comprovação de seus resultados, além de anedotas da parte interessada, que é quem ganha dinheiro com isso. A fisioterapia é uma ciência que só chegou a ser reconhecida porque provaram que traz benefícios aos pacientes, não devemos abrir mão de toda essa conquista e buscar técnicas de curas milagrosas. PBE – prática baseada em evidências é algo que deveria haver desde o primeiro semestre dos cursos de fisioterapia. Chega de desabafo e vamos ao que interessa.

Na alternativa “A”, duas observações. A corrente interferencial tradicional é de média frequência, mas a vetorial ou AMF não, ela traz as características da média frequência, entre elas menor impedância, mas com a frequência dentro do que se considera como baixa frequência.

As alternativas “B” e “C” fazem referência a correntes de baixa frequência. Então só restam duas alternativas que, até pela forma como foram elaboradas nos fazem perceber que é uma delas, ao menos a sensação que tive foi essa quando dei uma olhada superficial nessa questão.

Como só restam as alternativas “D” e “E”, vou apenas respostar o conteúdo sobre o TENS e a teoria das comportas.

MODO CONTÍNUO CONVENCIONAL
Fibras selecionadas
Proprioceptivas mielinizadas de maiores diâmetros, portanto, com baixa cronaxia.
Parâmetros de pulsos
Largura de pulso entre 40 e 75us
Freqüência entre 50 a 100 Hz
Intensidade entre 10 e 30mA
Sensação percebida
Parestesia entre fraca e média; sem contração muscular.
Mecanismo de Analgesia
Contrairritação; alteração no código de transmissão; não é revertido por antagonistas.
Distribuição de Eletrodos
Segmentar em concordância com o território doloroso e oucobrindo o mesmo.
Acomodação: Freqüente
Efeito/Pós Efeito: Rápido / variável

MODO CONTÍNUO ACUPUNTURAL
Fibras selecionadas
Motoras eferentes; eventualmente proprioceptivas; menores  diâmetros; alta cronaxia.
Parâmetros de pulsos
Largura de pulso entre 150 e 300us
Freqüência entre 1 e 4Hz
Intensidade entre 30 e 80mA
Sensação percebida
Batida com contrações rítmicas (pode ser pouco tolerada pelo paciente).
Mecanismo de Analgesia : há evidência de controle descendente inibitório via opioides
endógenos; é revertido por antagonistas.
Distribuição de Eletrodos: Relacionada a miótomo e pontos motores.
Acomodação: Pouco comum.
Efeito / Pós Efeito:  Até 45 minutos / até 24 horas.

MODO CONTÍNUO BREVE INTENSO
Fibras selecionadas: Mistas
Parâmetros dos pulsos
Largura de pulso entre 100 e 250us
Freqüência acima de 100 Hz
Intensidade entre 30 e 80mA
Sensação percebida
Média a forte parestesia com contrações musculares não rítmicas.
Mecanismo de Analgesia
Contrairritação; alteração no código de transmissão; sistemas descendentes não opiodes e gaba medula; revertido por antagonistas.
Distribuição de Eletrodos: Cobrindo todo território doloroso.
Acomodação : pouco freqüente
Efeito / Pós Efeito : rápido/variável.
Obs.: recomendável período de 2 a 4 minutos sem estimulação à cada 15 minutos.

MODO BURST
Fibras selecionadas :
Motoras eferentes; eventualmente proprioceptivas; menores diâmetros; alta cronaxia.
Parâmetros de pulsos : Largura de pulso entre 150 e 300us
Freqüência:  2Hz – modulada por 70 à 150Hz
Intensidade: entre 30 e 80mA
Sensação percebida : forte parestesia com contrações musculares rítmicas; poderá ser melhor tolerado pelo paciente.
Mecanismo de Analgesia :
Há evidência de controle descendente inibitório via opioides endógenas; é revertido por antagonistas.
Distribuição de Eletrodos : relacionada a miótomo e pontos motores.
Acomodação : pouco comum.
Efeito / Pós Efeito : até 45 minutos / até 24 horas.

TEORIA DO PORTÃO OU DE CONTROLE DA DOR
Esta teoria admite existir nos cornos posteriores medulares um mecanismo neural que comporta como um portão, podendo aumentar ou diminuir o débito dos impulsos transmitidos desde as fibras periféricas ao sistema nervoso central. O influxo somático submete-se pois, à influência reguladora do portão, mesmo antes de criar uma percepção à dor e consequente reação.

MODELO CONCEITUAL:
A lesão produz sinais que se transmitem por fibras finas. Estas penetram nos cornos posteriores da medula e ativam as células de transmissão que, por seu turno, enviam sinais para o cérebro. Contudo a atividade nas fibras finas cria, também, na raiz posterior, potenciais que refletem a presença de uma atividade prolongada e mais complexa no corno posterior.

A atividade das fibras grossas excita igualmente células da substância gelatinosa e inibe, simultaneamente, a transmissão dos influxos dolorosos procedentes das fibras aferentes finas.

PRIMEIRA VERSÃO:
1. A transmissão dos impulsos nervosos é modulada por um mecanismo de controle espinhal, funcionando como um portão, situado nos cornos posteriores.

2. A atividade nas fibras grossas tende a inibir a transmissão, ao passo que nas fibras finas tendem a facilitá-la.

3. O mecanismo de controle espinhal sofre a influência dos impulsos nervosos que descem do cérebro propriamente dito..

4. Um sistema especializado de fibras grossas de condução rápida ativa processos seletivos cognitivos, os quais influenciam por meio de fibras descendentes, as propriedades moduladoras do mecanismo de controle espinhal.

5. Quando o fluxo das células de transmissão da medula ultrapassa um nível crítico ativa o Sistema de Ação, isto é, aquelas regiões neurais responsáveis por esquemas complexos e sequenciais que se associam ao comportamento e experiência característicos do fenômeno doloroso.

O efeito da teoria foi suscitar num primeiro momento controvérsias entre cientistas e clínicos especializados na dor.

SEGUNDA VERSÃO, MAIS APERFEIÇOADA:
A hipótese de a substância gelatinosa ser o veículo primário do mecanismo do portão permanece como tal, mas ainda não constitui um fato.
Falar do antagonismo entre fibras finas e grossas pode significar um fato arbitrário.

É altamente provável que os nervos possam controlar o encaminhamento dos impulsos nervosos dentro do sistema nervoso central graças a um mecanismo que depende de um transporte e de uma libertação relativamente lenta de substâncias químicas a que se junta uma transmissão e uma ação muito rápidas dos influxos nervosos. A maior parte do substrato anatômico estável, necessário para a transmissão dos impulsos nervosos, seria assim mantido num estado de inação por estes lentos processos de mudança. O conceito de sinapses ineficazes, que a ação das modificações lentas das células da substância gelatinosa poderia libertar e tornar atuantes, junta uma nova dimensão à teoria do portão.

Os médicos sentiram-se mais livres para descrever os casos fora do comum ou os fenômenos inexplicáveis. Os psicólogos encontraram um modelo que situava as observações e as técnicas psicológicas na corrente de investigação sobre a dor. Os fisiologistas foram explorar zonas medulares ou cerebrais, antes consideradas como estranhas à dor.
Uma das primeiras consequências da teoria do portão foi abolir a ideia de que a dor era uma sensação simples e projetada especificamente sem interferência até um centro de integração da dor. Esta concepção durante muito tempo relegou à sombra as dimensões cognitivas e afetivas da experiência global. A teoria do portão, pondo acento tônico nos sistemas de processos paralelos, procurava agora, um quadro teórico que integrasse as dimensões sensoriais, afetivas e cognitivas da dor.

Ao eliminar a noção de uma via dolorosa direta e única, a teoria do portão permitiu refletir sobre as interações entre os sistemas ascendentes e descendentes.

Pela teoria do portão, as fibras da pele, das vísceras e de outras estruturas convergem para as células de transmissão. A resultante de todas essas influências, facilitadoras e inibidoras, determina o débito dessas células. A dor associada a lesões dos nervos periféricos caracteriza-se por hiperalgesia e hiperestesia atribuíveis a uma liberação excessiva da passagem da dor.

A teoria do portão fornece uma base conceitual para a explicação da dor espontânea e da somação temporoespacial favorecida pela convergência dos influxos. Pode-se igualmente explicar a dor espontânea que surge na falta de toda a estimulação manifesta. A teoria do portão deixa entender que processos psicológicos podem ter uma influência sobre a percepção da dor e a reação consecutiva, atuando no mecanismo espinhal do portão.
Dois mecanismos podem explicar a irradiação dolorosa:

1. Propagação da dor em regiões adjacentes do corpo. Este influxo difuso encontra-se normalmente inibido pelos mecanismos do portão, mas pode provocar descargas na célula T se possui uma intensidade suficiente ou se o portão está aberto.

2. Propagação da dor e das zonas-gatilho, zonas comprometidas em numerosos fenômenos de dor para regiões consideravelmente afastadas, comprometendo estruturas viscerais bem como regiões cutâneas e miofasciais. Esta irradiação permite supor que certas atividades, as que ocorrem em regiões distantes, podem abrir o portão.

Lesões do sistema nervoso central são igualmente susceptíveis de produzir irradiações dolorosas.

A teoria do portão é capaz de conceder às atividades neurais prolongadas que se relacionam com a dor a importância que se lhe consiga. Dificilmente se explicariam certas observações clínicas e experimentais espantosas sem fazer intervir estes mecanismos.

A ideia da existência do fenômeno da dor, de um mecanismo de tipo memória, repousa em dados experimentais convincentes.

A teoria do portão permite entender certos tipos de dor prolongada, consecutiva a lesões dos nervos periféricos ou outras patologias nervosas. Para esclarecer estes efeitos prolongados, que constituem algumas das características mais enigmáticas da dor, é preciso postular a existência de influxos somáticos persistentes, intensos ou comportando outras anomalias, capazes de gerar modificações a longo prazo da atividade do sistema nervoso central.

Os mecanismos nervosos que estão na base da atividade prolongada de tipo mnemônico associada à dor permanecem misteriosos.
Em certos pormenores a mecanismos do portão põe ainda um problema sério. O modelo original insistia no controle pré-sináptico, mas sabe-se hoje que se produzem inibições também pós-sinápticas. As pequenas dimensões dos componentes e o seu amalgamento em zonas minúsculas levantam problemas técnicos consideráveis.

Todavia, o conceito original de um portão de controle mantém-se como um poderoso resumo dos fenômenos verificados na medula e no cérebro e tem capacidade para explicar muitos dos problemas misteriosos e intrigantes que se encontram na clínica.

Alternativa assinalada no gabarito da banca organizadora: E

Alternativa que indico após analisar: E

2 pensamentos sobre “IADES – EBSERH – UFTM/MG 2013 – Questão 33

  1. A parte do DESABAFO foi a melhor rs. Concordo total e infelizmente ainda temos profissionais que passam uma sessão inteira apenas utilizando TENS como resolução da patologia. Parabéns, as questões são muito uteis!!!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s